Teologia do Corpo para jovens
Terça-feira, 31 Março, 2009 at 16:53 | In Teologia do Corpo | Leave a CommentTags: amor, castidade, Daniel Pinheiro, jovem, jovens, juventude, Sexualidade, Teologia do Corpo, TOB, vida
A gentileza das legendas foi feita pelo irmão e companheiro de TOB, o amigo Daniel Pinheiro.
Paz e Bem!
Novidades sobre a Teologia do Corpo no Brasil
Segunda-feira, 17 Novembro, 2008 at 9:43 | In Teologia do Corpo | Leave a CommentTags: Audiências, Igreja, Magistério, Papa João Paulo II, Sexualidade, Teologia do Corpo, Theology of the Body, TOB, TOBlog

Com um “delay” de 3 meses eu faço um anúncio que jamais deveria ter sofrido tanto atraso. Está no ar, ou melhor, na web, desde o dia 14 de agosto, o TOBlog, ou seja, o Blog Oficial do Projeto Teologia do Corpo – Brasil.
A idéia é fazer do TOBlog mais um canal de divulgação, formação e interatividade sobre a TOB. Vários artigos e debates sobre assuntos atuais, mas que estejam relacionados com os temas propostos pela Teologia do Corpo (por exemplo, matrimônio, sexualidade, afetividade, contracepção…), estarão sempre presentes por ali.
Para quem está visitando o Palavras Apenas há pouco tempo e ainda não teve oportunidade de conhecer o que já foi publicado aqui anteriormente sobre a Teologia do Corpo, faço um pequeno resumo:
A Teologia do Corpo é o primeiro projeto catequético do Papa João Paulo II, o qual ele ofereceu como fruto de anos de reflexão sobre o Amor humano no plano Divino. As 129 catequeses da Teologia do Corpo foram pronunciadas pelo Papa ao longo das Audiências de Quarta-feira, de 1979 até 1984. Foram 5 anos refletindo semanalmente sobre algum tema envolvendo o amor autêntico, a sexualidade humana, a maturidade afetiva do homem e da mulher, o papel de amor na vida da sociedade e da Igreja, o significado esponsal do corpo, o matrimônio e o celibato, enfim, cerca de um terço de tudo que o Magistério da Igreja fala sobre o Matrimônio foi produzido durante o pontificado do Servo de Deus João Paulo II, e a Teologia do Corpo é o supra-sumo desses ensinamentos.
Todos estão convidados a visitar, aprender, divulgar e participar:
http://teologiadocorpo.wordpress.com
O site da Teologia do Corpo – Brasil também continua os trabalhos, com seções novas, inclusive com as primeiras audiências de João Paulo II traduzidas para o português:
http://www.teologiadocorpo.com.br
No site também há informações sobre como agendar palestras sobre o tema em sua cidade.
Veja o que já foi publicado no P.A. sobre a Teologia do Corpo:
http://palavrasapenas.wordpress.com/category/teologia-do-corpo/
Paz e Bem!
Teologia do Corpo: um sonho começa a se realizar
Quarta-feira, 13 Agosto, 2008 at 22:00 | In Teologia do Corpo | 3 CommentsTags: Família, Mídia e Sociedade, Sexualidade, televisão, Teologia do Corpo
Quis o destino (ou será a Divina Providência?) que os caminhos daqueles brasileiros que sonhavam em tornar a Teologia do Corpo conhecida, espalhada e vivida também por aqui, se cruzassem, ainda que de maneira “virtual”.
Os caminhoso se cruzaram. E eis que um grande sonho começa a se realizar:
Visite, e divulgue: www.teologiadocorpo.com.br.
Obs.: Peço perdão por algumas cenas e palavreados do vídeo acima, mas a causa é nobre.
Paz e Bem!
40 anos de Humanae Vitae!
Sexta-Feira, 25 Julho, 2008 at 0:54 | In A Voz do Santo Padre, Bioética / Defesa da Vida, Moral e Sexualidade, Teologia do Corpo | 1 CommentTags: Christopher West, contracepção, Humanae Vitae, João Paulo II, Paulo VI, Sexualidade, Teologia do Corpo

Hoje algo muito importante faz aniversário. É a Encíclica Humanae Vitae, do saudoso Santo Padre Papa Paulo VI. Um marco na história da Igreja, no que diz respeito à defesa da vida, e da reflexão sobre a vocação da família e do casal cristão. Eis um trecho:
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“São muitas as vozes, amplificadas pelos meios modernos de propaganda, que estão em contraste com a da Igreja. A bem dizer a verdade, esta não se surpreende de ser, à semelhança do seu divino fundador, “objeto de contradição”; mas, nem por isso ela deixa de proclamar, com humilde firmeza, a lei moral toda, tanto a natural como a evangélica. A Igreja não foi a autora dessa lei e não pode portanto ser árbitra da mesma; mas, somente depositária e intérprete, sem nunca poder declarar lícito aquilo que o não é, pela sua íntima e imutável oposição ao verdadeiro bem comum do homem.” [Humanae Vitae, 18]
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Sábias palavras! Santas palavras! Santo propósito!

E em comemoração ao 40º aniversário desta Encíclica, que é um verdadeiro luzeiro para o rebanho católico e para todo o mundo contemporâneo, compartilho com vocês minha singela tradução livre deste artigo de Christopher West, uma das vozes que propagam de forma mais popular as catequeses do Santo Padre João Paulo II sobre a sua Teologia do Corpo, um dos grandes frutos da Humanae Vitae.
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HUMANAE VITAE: UMA INSPIRAÇÃO PARA JOÃO PAULO II
Por Christopher West (original em http://www.tobinstitute.org/newsitem.asp?NewsID=27)
Este 25 de julho marca o 40º aniversário de um dos mais controversos documentos na história papal : a encíclica Humanae Vitae, que reafirmou o ensino tradicional cristão sobre a imoralidade de contracepção. Como os entusiastas da TOB (Theology Of the Body – Teologia do Corpo) sabem, este é o documento que inspirou o Cardeal Wojtyla a começar a escrever a sua “obra-prima”. Tal como ele próprio diz, sua TOB constitui “um extenso comentário sobre a doutrina contida precisamente na Humanae Vitae” (TOB 133:2). Para questões que partem da Humanae Vitae “que passam, de alguma forma, pelo conjunto das nossas reflexões… Isso é importante do ponto de vista da estrutura e método” (TOB 133:4).
Você deve ter notado que eu disse acima “ensino tradicional Cristão” sobre contracepção. Só nos últimos 50-70 anos isso tem sido encarado principalmente como uma questão “católica”. Até 1930, todos os órgãos cristãos eram uníssonos em sua condenação de qualquer tentativa de esterilizar o ato conjugal. Naquele ano, a Igreja Anglicana rompeu com mais de mil e novecentos anos de ininterrupto ensinamento cristão. Quando a pílula estreou no início dos anos 1960’s, a Igreja Católica conservou sozinha aquilo que em breves 30 anos chegou a ser visto como uma arcaica, até mesmo absurda posição.
Quando Margaret Sanger e seus seguidores começaram a incentivar a contracepção, no início do século XX, sábios homens e mulheres – e certamente não apenas católicos – previram que separar sexo de procriação acabaria por levar ao caos social e sexual. A atual cultura de adultério, divórcio, sexo pré-matrimonial, DST’s, filhos fora do casamento, aborto, crianças sem pais, homossexualismo, pobreza, criminalidade, drogas, e violência foi tudo previsto.
Qual é a ligação de tudo isso com a contracepção? Se você já ouviu minhas palestras, provavelmente você já me ouviu falar sobre isso antes. Mas é importante que todos nós compreendamos como a contracepção tem contribuído para a confusão em que estamos vivendo hoje. Devemos ser capazes de explicar isto a qualquer um que pede a razão pela qual a Igreja é tão “rígida” sobre contracepção.
Embora hoje em dia o caos social seja certamente complexo, a Igreja demonstra a “lógica interna” da influência da contracepção. Muitas vezes as pessoas são tentadas a fazer coisas que não devem fazer. A dissuasão da natureza dentro de si próprio e no seio da sociedade, contribui para refrear essas tentações e manter a ordem. Por exemplo, o que aconteceria com a taxa de criminalidade em uma determinada sociedade se de repente abrissem as portas de todas as suas prisões?
Aplique a mesma lógica ao sexo. As pessoas ao longo da história têm sido tentadas a cometer adultério. Isto não é novidade. No entanto, uma das principais dissuasões de sucumbir à tentação foi o medo da gravidez. O que aconteceria se esta dissuasão natural fosse suprimida? Como a história demonstra, as taxas de adultério subiriam como foguetes. Qual é uma das principais causas de divórcio? Adultério. Aplique a mesma lógica às relações sexuais pré-conjugais. Tal comportamento tem, na verdade, subido como foguete. Relações sexuais pré-conjugais, como uma espécie de “adultério por antecipação”, é também um primeiro indicador de futura ruptura matrimonial.
Há um agravante. Uma vez que nenhum método contraceptivo é 100% eficaz, um aumento no número de adultérios e de relações pré-maritais conduzirá inevitavelmente a um aumento da “gravidez indesejada”. O que vem depois? Tantas pessoas pensam que a contracepção é a solução para o problema do aborto. Dê uma olhada mais profunda e você verá que isso é como atirar gasolina em um incêndio para tentar extinguí-lo. Em última análise, existe apenas um motivo pelo qual temos o aborto – porque os homens e mulheres estão tendo relações sexuais sem estarem “abertos à vida”. Se esta mentalidade está na raiz do aborto, a contracepção nada faz além de fomentar e incitar esta mentalidade.
Nem todo mundo vai recorrer ao aborto, evidentemente. Alguns irão escolher adoção. Outras mães (maioria) irão criar essas crianças por si próprias. Daí o número de crianças que crescem sem um pai (o que já foi aumentado pelo aumento do número de divórcios) será agravada. E de uma cultura de crianças “sem-pais” inevitavelmente surge uma cultura da pobreza, da criminalidade, das drogas, e da violência. Todos esses males sociais se compõem exponencialmente de geração em geração, uma vez que crianças “sem-pais” são também muito mais suscetíveis de terem filhos fora de um casamento, e mesmo se se casarem, muitos se divorciam.
E o que dizer sobre a homossexualidade? A nossa cultura é impotente para resistir à “agenda gay” porque nós já aceitamos a sua premissa básica com a contracepção: a redução do sexo à simples troca de prazer. Quando a abertura à vida já não é uma parte intrínseca da equação sexual, porque é que o intercurso sexual tem que ser com o sexo oposto?
A nossa situação cultural pode parecer sombria. Mas somos pessoas de grande esperança. Podemos mesmo dizer: oh! feliz culpa da revolução (contraceptiva) sexual, que ganhou para nós tão grande teologia do corpo. A grandeza da TOB, é claro, está pura e simplesmente no fato de que ela nos põe em contato com o Verbo feito carne. É aí que reside a nossa esperança: em Cristo o noivo e sua promessa de que ele está em nós.
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Paz e Bem!
PL 122/2006: a lei da ditadura gay?
Quarta-feira, 23 Julho, 2008 at 16:47 | In Direito, Teologia do Corpo | Leave a CommentTags: homossexualismo, leis, mordaça gay, Política, Sexualidade, Sociedade

Pras almas inocentes que ainda não acreditam que o PL 122/2006, que criminaliza a “homofobia”, instaurará no Brasil, caso entre em vigor, uma ditadura gay, sugiro que leiam o artigo abaixo, do blog do excelente Jorge Ferraz (Deus lo Vult!):
Leiam, e vejam por quê este projeto de lei já foi apelidado de “mordaça gay”.
Paz e Bem!
O “casamento” homossexual ameaça a nação e a fé
Sábado, 28 Junho, 2008 at 18:40 | In Moral e Sexualidade, Teologia do Corpo | 4 CommentsTags: homossexualidade, homossexualismo, manifesto, Sexualidade, TFP
É um resumo do que diz um manifesto que a T.F.P. — Tradição, Família e Propriedade, movimento católico tradicional — publicou nos três principais jornais dos E.U.A., contra a imposição à sociedade norte-americana do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo.
Como não poderia deixar de ser, o manifesto é rico em argumentação, citando vários documentos papais e o Catecismo como fontes. Está disponível, na íntegra, no blog Notícias Lepanto. Leitura altamente recomendável!
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Contribuo acrescentando um trecho da Veritatis Splendor, encíclica de João Paulo II, que acabo de ler:
“Abre-se o justo espaço à misericórdia de Deus pelo pecado do homem que se converte, e à compreensão pela fraqueza humana. Esta compreensão não significa nunca comprometer e falsificar a medida do bem e do mal, para adaptá-la às circunstâncias. Se é humano que a pessoa, tendo pecado, reconheça a sua fraqueza e peça misericórdia pela própria culpa, é inaceitável, pelo contrário, o comportamento de quem faz da própria fraqueza o critério da verdade do bem, de modo a poder-se sentir justificado por si só, mesmo sem necessidade de recorrer a Deus e à Sua misericórdia. Semelhante atitude corrompe a moralidade da sociedade inteira, porque ensina a duvidar da objectividade da lei moral em geral e a rejeitar o carácter absoluto das proibições morais acerca de determinados actos humanos, acabando por confundir todos os juízos de valor.” (n. 104)
Sem mais,
Paz e Bem!
Nada de novo no front
Quarta-feira, 14 Maio, 2008 at 9:48 | In Bioética / Defesa da Vida, Matrimônio e Família, Teologia do Corpo | Leave a CommentTags: aborto, controle populacional, meio-ambiente, vida
A batalha ideológica entre os movimentos pró-vida e os pró-aborto não apresenta nada de novo em suas manifestações ao redor do mundo.
O site LifeSiteNews.com denuncia que órgãos da imprensa estatal ignoraram a Marcha Pela Vida, que mobilizou cerca de 8 mil pessoas na capital canadense. Mesmo órgãos da imprensa independente fizeram uma pífia cobertura do evento. Leia aqui (em inglês).
Além disso, a Revista Time publica reportagem tendenciosa: “Quer devastar o ambiente? Tenha um bebê”, diz a reportagem da revista. O LifeSiteNews.com denuncia o envolvimento de ambientalistas radicais com a indústria do controle populacional (leia-se: abortistas). Claro, com a ajuda de sempre da mídia. Pelo jeito é tanto lá como cá. Leia aqui (também em inglês).
É interessante como a opinião dos “ambientalistas” confronta com a do Santo Padre, que comemorou o 40° aniversário da encíclica Humanae Vitae, dizendo aos participantes de um congresso internacional sobre o tema, na Universidade Lateranense de Roma, no último sábado:
“A verdade expressa na Humanae Vitae não muda, muito pelo contrário, à luz das novas descobertas científicas, seus ensinamentos se tornam ainda mais relevantes e estimulam a reflexão sobre os valores intrínsecos que possui.”
Disse ainda:
“Esta palavra do Senhor [Mt 19,4-6] continua imutável com sua verdade profunda e não pode ser apagada pelas várias teorias que se sucedem através dos tempos e, às vezes, até se contradizem. A lei natural, que é a base do reconhecimento da verdadeira igualdade entre as pessoas, merece ser reconhecida como a fonte inspiradora da relação entre os esposos em sua responsabilidade em gerar novas crianças. A transmissão da vida está inscrita na natureza e suas leis permanecem como uma regra não-escrita à qual todos devem recorrer. Qualquer tentativa de distrair nossa atenção deste princípio permanece estéril e não produz futuro.”
E finalmente:
“A nova vida é o fruto de um amor capaz de pensar e decidir em total liberdade, sem permitir-se ser excessivamente condicionado pelo sacrifício que isto pode exigir. Daqui emerge o milagre da vida que os pais experimentam em si mesmos, assim como a percepção da extraordinária natureza daquilo que é realizado neles e através deles. Nenhuma técnica mecânica pode substituir o ato de amor que marido e mulher trocam como um sinal do mistério maior que eles próprios, no qual eles protagonizam e co-participam da criação.“
Bonito, né? Portanto, protagonizar e co-participar da criação é mais uma das missões dos casais. O conselho de que “não tenha filhos” para salvar o planeta, só deixa transparecer um desejo frustrado de usar o ambientalismo radical como desculpa para fazer controle populacional.
Paz e Bem!
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Leia também:
Teologia do Corpo (por Christopher West) – Artigo 8
Sexta-Feira, 29 Fevereiro, 2008 at 8:59 | In Teologia do Corpo | Leave a CommentTags: amor, catolicismo, Família, Sexualidade, teologia, Teologia do Corpo, vida
O CELIBATO POR AMOR DO REINO E A REALIZAÇÃO PLENA DA SEXUALIDADE HUMANA
por Christopher West
“Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda.” (Mt 19,12)
Um eunuco é alguém incapaz de ter relações sexuais. Assim, quando Cristo fala sobre eunucos desde o nascimento, ele está se referindo a pessoas que são incapazes da união sexual em decorrência de algum problema de nascença. Quando ele fala sobre aqueles que se tornaram eunucos pelas mãos de homens, ele provavelmente está se referindo àquelas tristes almas que caíram sob a lâmina da castração. Mas o que é um eunuco por amor ao Reino?
Coloque-se nos sapatos (ou sandálias) de algum dos descendentes de Abraão que tenha ouvido Cristo expressar estas palavras. Você soubia e compreendia desde a sua juventude que a promessa de Deus a seu pai na fé foi de torná-lo extremamente fértil, torná-lo pai de uma multidão de nações (Gn 17,2-6). De fato, cada vez que Deus estabeleceu uma aliança com seu povo, assim como foi com Adão (Gn 1,28), Noé (Gn 9,1), Jacó (Gn 35,10-12), ou Moisés (Lv 26,9), Deus os ordenou que fossem “férteis e se multiplicassem”.
O Reino de Deus seria estabelecido pela multidão dos descendentes de Abraão. De fato, o messias veio da linhagem de Abraão. Por isso, aqueles que não podem se relacionar sexualmente (isto é, eunucos), eram vistos como amaldiçoados por Deus, e até mesmo excluídos do “Reino”.
Todavia este Jesus está dizendo que alguns homens e mulheres perfeitamente capacitados para a união sexual podem, na verdade, escolherem se abster da união sexual durante suas vidas inteiras especificamente por causa do Reino dos céus. O QUÊ?!
As palavras de Cristo marcam uma virada decisiva na revelação de Deus. É muito difícil para os filhos e filhas de Abraão compreenderem tal decisão. Na verdade, muitos dos seguidores de Jesus ao longo da história também acharam a vocação do celibato difícil de compreender. Alguns, de fato, como Cristo parecia saber, não estariam aptos a “recebê-lo” enfim.
Matrimônio, Sexo e Celibato Estão Inter-relacionados
João Paulo II oferece-nos uma revigorada perspectiva sobre o significado do celibato pelo Reino em sua série de audiências gerais conhecidas como a “teologia do corpo” (TdC). Ele demonstra que, longe de desvalorizar a sexualidade e o matrimônio, o verdadeiro celibato cristão na verdade aponta para sua realização última. De fato, nós simplesmente não podemos compreender o sentido cristão do sexo e do matrimônio a menos que compreendamos o sentido cristão do celibato.
Matrimônio, sexo e a vocação do celibato estão muito mais inter-relacionados do que poderíamos pensar a princípio. Eles são também interdependentes. Quando cada um recebe a estima e o respeito devidos, o delicado equilíbrio entre eles é mantido.
Por outro lado, se algum dos três (matrimônio, sexo ou celibato) é desvalorizado, supervalorizado ou, ainda, desrespeitado, os outros inevitavelmente sofrem. Não é coincidência, por exemplo, que a revolução sexual traga, além de um surpreendente aumento do número de divórcios, também um surpreendente declínio no número de vocações para o sacerdócio e para a vida religiosa. Também não é nenhuma coincidência que equívocos históricos sobre a vocação celibatária tenham levado a uma depreciação do sexo e do matrimônio.
Todos esses erros se originam da falha em equilibrar a tensão do paradoxo. Dizer que o celibato demonstra a satisfação plena da sexualidade não é uma contradição de termos. Isto é um paradoxo. Há algo que tortura a mente ao tentar reconciliar os (aparentemente) irreconciliáveis pólos do paradoxo. Portanto, para evitar o desconforto nós focamos num aspecto de uma verdade e acabamos por negar os outros.
Mas é precisamente pela insistente pressão da tensão do paradoxo que nós descobrimos a plena verdade. Nós precisamos encontrar nosso lar nessa tensão. Somente assim nós poderemos compreender devidamente a profunda inter-relação existente entre matrimônio, sexo e a vocação celibatária. Vamos pressionar.
O Reino, a Ressurreição e o Matrimônio
No capítulo 22 do Evangelho de Mateus (veja também Mc 12 e Lc 20), os saduceus, um grupo de judeus que não acreditavam na ressurreição dos mortos, vêm até Jesus com um enredo com o qual eles acreditaram que poderiam encurralar Jesus para que ele negasse a ressurreição também. Um homem possuía uma esposa e morreu. Um de seus irmãos a desposaram-na para para dar a seu falecido irmão uma prole, mas ele morreu também. Isto aconteceu de novo, e de novo, até que sete irmãos tivessem todos se casado com a mesma mulher, sucessivamente. Os saduceus então perguntaram a Cristo de quem ela seria esposa na ressurreição.
Cristo respondeu: “Errais não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus. Na ressurreição, os homens e mulheres não se casarão, e nem se darão em casamento…” (v. 29-30).
Para muitos, este ensinamento de Cristo soa amargo. Por quê? Porque nós não compreendemos nem as Escrituras e nem o poder de Deus. Se compreendêssemos, nos regozijaríamos nessas palavras. A instrução de Cristo não é uma desvalorização do matrimônio; pelo contrário, ela aponta para o propósito e sentido últimos deste maravilhoso sacramento.
O matrimônio nesta vida tem a função de prefigurar o céu onde, por toda a eternidade, nós celebraremos “as núpcias do Cordeiro” (Ap 19,7), o casamento de Cristo com sua Igreja. Este é o mais profundo desejo do coração humano – viver na eterna glória da comunhão com o próprio Deus. Por mais maravilhoso que o matrimônio e a intimidade conjugal possam ser nesta vida, é somente um sinal, um antegozo, um sacramento do que virá. O matrimônio terreno é simplesmente preparação para o matrimônio celeste.
É assim com todos os sacramentos. Eles nos preparam para o céu. Não há sacramentos no céu, não porque eles simplesmente acabarão, mas porque todos eles estarão realizados. Homens e mulheres não mais precisarão de sinais para apontá-los para o céu quando eles já estiverem lá no céu. Pense nisso como as placas indicativas de uma estrada. Se você estiver dirigindo em direção a São Paulo, você não vai mais precisar de placas indicando pra que lado fica São Paulo quando você já tiver chegado lá.
Os esposos às vezes questionam se isso significa que eles não ficarão juntos no céu. É claro que ficarão, se ambos aceitarem a proposta de casamento de Cristo, e viverem em fidelidade a Ele nesta vida. De fato, cada membro da raça humana que aceita o convite para a festa das núpcias celestes estará na mais íntima comunhão possível com todos os outros.
É a isto que chamamos de “comunhão dos santos”. Como o Catecismo diz, esta “será a realização última da unidade do gênero humano, querida por Deus desde a criação. …Os que estiverem unidos a Cristo formarão a comunidade dos remidos, ‘a cidade santa’ de Deus, ‘a Noiva, a esposa do Cordeiro’” (C.I.C., §1045).
Usando a imagem esponsal como uma analogia, nós podemos dizer que o plano de Deus desde toda a eternidade é “se casar” conosco (cf. Os 2,18). E este plano eterno foi prefigurado e revelado “desde o princípio” pela nossa criação como machos e fêmeas e nosso chamado para nos tornarmos “uma só carne”. O corpo humano possui um “sentido nupcial”, de acordo com João Paulo II, porque ele proclama e revela o plano eterno de amor de Deus – seu plano para a união nupcial entre homem e mulher e, de forma análoga, entre Cristo e a Igreja.
Como São Paulo diz, citando o Gênesis: “Por esta razão um homem deve deixar seu pai e sua mãe, e unir-se a sua esposa, e os dois se tornarão uma só carne. Este é um grande mistério, eu quero dizer em relação a Cristo e a Igreja” (Ef 5,31-32).
Cristo deixou seu Pai no céu. Ele deixou a casa de sua mãe na Terra – para dar seu corpo para sua Noiva, e assim nós pudemos nos tornar “uma só carne” com ele e nos reerguemos para a vida da Trindade por toda a eternidade.
Como João Paulo diz, isto significa que “o matrimônio e a própria procriação não determinam definitivamente o sentido original e fundamental de ser um corpo ou de ser, como um corpo, macho e fêmea. O matrimônio e a procriação simplesmente dão uma realidade concreta a este sentido nas dimensões da história” (TdC, 13/01/1982). Assim como as “dimensões da história” são plenamente realizadas, assim também será o “sentido nupcial do corpo” plenamente realizado não somente pela união de um homem e uma mulher, mas na comunhão de todos os homens e mulheres unidos pela visão de Deus face a face (cf. TdC, 09/12/1981).
O Sentido Nupcial do Celibato
Somente tendo em vista esta realidade celeste nós podemos compreender corretamente a vocação do celibato como Cristo a desejou. Cristo não chama alguns de seus seguidores a abraçar o celibado por causa do celibato, mas “por amor do Reino”. O Reino é precisamente o matrimônio celeste. Em resumo, aqueles que escolhem o celibato estão “pulando” o sacramento, em antecipação à coisa real.
Homens e mulheres celibatários caminham além das dimensões da história – enquanto continuam vivendo dentro das dimensões da história – e de forma surpreendente declaram ao mundo que o Reino de Deus está aqui (Mt 12,28). O celibato cristão, portanto, não é uma rejeição da sexualidade e do casamento. É participação na verdade e no significado plenos da sexualidade e do casamento.
Ambas as vocações, de formas particulares, são a satisfação do chamado ao “amor nupcial” revelado através dos nossos corpos. Como João Paulo II diz: “No fundamento do mesmo sentido nupcial do ser como um corpo, macho ou fêmea, aí pode ser formado o amor que compromete o homem com o casamento por toda a sua vida, mas aí pode também ser formado o amor que compromete o homem com uma vida de continência por amor do Reino dos céus” (TdC, 28/04/1982).
Nós não podemos fugir ao chamado da nossa sexualidade. Cada homem é chamado a ser ambos: um marido e um pai; cada mulher é chamada a ser ambas: uma esposa e uma mãe – ou através do casamento, ou através da vocação celibatária. Em certo sentido, homens e mulheres celibatários se tornam “ícones” da Igreja; seu noivo é Cristo. E ambos dão à luz muitos filhos espirituais.
Assim, os termos noivo e noiva, pai (padre) e mãe (madre), irmão (frade) e irmã (freira), são aplicáveis ao matrimônio, mas também ao celibato. Ambas as vocações são indispensáveis na construção da família de Deus. As vocações se complementam, e uma demonstra o significado da outra. O matrimônio revela o caráter nupcial do celibato, e o celibato revela que o propósito último do matrimônio é preparar-nos para o céu.
Celibato: o “Maior” Chamado?
A história testemunhou algumas graves distorções daquele ensinamento de São Paulo quando este diz que aquele que se casa “faz bem”, mas aquele que não se casa “faz melhor” (1Cor 7,38). Isto leva alguns a ver o matrimônio como uma vocação de “segunda classe”, para aqueles que não conseguem “lidar” com o celibado. Isto também solidifica as suspeitas errôneas de certas pessoas de que o sexo é inerentemente sujo, e somente aqueles que se abstêm dele podem ser verdadeiramente “santos”.
Tais erros levaram João Paulo II a firmemente afirmar: “A ’superioridade’ da continência sobre o matrimônio na autêntica Tradição da Igreja nunca significou menosprezo do matrimônio ou desdém quanto ao seu valor essencial. Ela não significa qualquer mudança que seja em direção ao maniqueísmo” (TdC, 07/04/1982). (Maniqueísmo é uma antiga heresia que vê as coisas do corpo como más, colocanto toda a ênfase nas realidades espirituais.)
O celibato é “melhor” ou “maior” que o matrimônio no sentido em que o céu é melhor ou maior que a Terra. O celibato, diferentemente do matrimônio, não é um sacramento do matrimônio celeste aqui na Terra. O celibato é um sinal da vida além dos sacramentos, quando nós estaremos unidos com Deus diretamente através do “Matrimônio do Cordeiro”.
De fato, eu acho um tanto infeliz o fato de definir esta vocação baseado no que ela implica em “desistir” em vez de definí-la em termos do que ela implica em “abraçar”. Uma boa parte das confusões poderiam ser evitadas se nós descrevêssemos a vocação celibatária como o “matrimônio celeste”, por exemplo.
É claro que poucos dos que escolhem seguir a vocação do celibato poderiam dizer que vivem o “céu na terra” todos os dias de suas vidas. O celibato antecede um grande bem, e isso exige sacrifício. Isso exige um sofrimento frutífero “por amor do Reino”.
Aqui se torna claro que a Igreja não mantém a vocação celibatária em tão grande consideração por acreditar que o sexo seja algo sujo. Ela mantém o celibato em tão grande consideração precisamente porque ela tem na mais alta consideração justamente aquilo que é sacrificado por amor ao Reino – a expressão sexual genital.
Se o sexo fosse algo sujo e dessacralizado, oferecê-lo como um dom a Deus seria um ato de sacrilégio (nós todos sabemos que não há nenhum mérito em abster-se do pecado na Quaresma, certo?). Mas, uma vez que o sexo é um dos mais preciosos tesouros que Deus deu à humanidade, fazer dele um dom, em retribuição a Deus, é uma das mais genuínas expressões de ação de graças (eucharistia) por um dom tão grande. O outro está recebendo-o das mãos de Deus e vivendo-o como a expressão da aliança conjugal.
Todos são chamados para uma vida de santidade pela resposta ao chamado ao “amor nupcial” estampado em seu corpo. Mas nem todos são chamados da mesma forma. “Cada um tem de Deus um dom particular: uns este, outros aquele” (1Cor 7,7).
Cada pessoa deve responder ao dom que recebeu. Se alguém é chamado para o celibato, então ele não deve escolher o matrimônio. Se alguém é chamado para o matrimônio, então ele não deve escolher o celibato. A oração é importante para ajudar a discernir a vocação.
Celibato: Testemunho de Liberdade
A vocação celibatária também proporciona um testemunho muito necessário em nossos mundo saturado de sexo, para a realidade da liberdade humana. As próprias palavras de Cristo, “alguns se fazem eunucos a si mesmos”, demonstra o caráter voluntário desta vocação. Não é algo a que as pessoas são forçadas pela Igreja. É um dom livremente dado por Deus e livremente escolhido por alguns de seus seguidores.
Por quê as pessoas esterilizam ou castram seus animais de estimação? Porque os animais não podem dizer não ao seu impulso para acasalarem-se. E ao contrário do que as típicas novelas poderiam nos fazer acreditar, nós podemos.
Eis uma das principais diferenças entre animais e seres humanos – o dom e a responsabilidade da liberdade. Nós não somos compelidos pelo instinto. Nós podemos determinar nossas próprias ações. Nós podemos dizer “sim” a um determinado comportamento, ou nós podemos dizer “não”. Se não pudermos dizer não, então não somos livres.
A sociedade tem muito a dizer sobre “liberdade sexual”. Mas liberdade sexual, no senso popular, consiste na licença para praticar o sexo sem nunca ter que dizer não. Isto não é liberdade sexual. Isso é ser escravo da libido.
O homem ou mulher que escolhe abrir mão da expressão sexual genital “por amor do Reino” demonstra que ele ou ela não está escravizado(a) por uma libido incontrolável, mas é verdadeiramente livre – livre para amar a Deus e para amar aos outros em um dom de si mesmo comovente, e sem reservas. E devo acrescentar que este é um dom de si mesmo corporalsexual. e, nesse sentido,
Anjos não podem ser celibatários. Eles não possuem corpos. Eles não são seres sexuais. De fato, de acordo com João Paulo II, o verdadeiro impulso da vocação do celibato, como aquela do matrimônio cristão, é um desejo de viver a verdade da sexualidade, redimida e purificada em Cristo.
Deus nos deu o desejo sexual “no princípio”, de acordo com João Paulo, para que ele fosse a verdadeira força para amar à imagem de Deus através do sincero dom de si mesmo. É por isso que ele chama o impulso sexual de “um vetor de aspiração com o qual nossa completa existência se desenvolve e se aperfeiçoa” (Amor e Responsabilidade, pág. 46). De acordo com a revelação cristã, existem duas formas de atender a este chamado fundamental ao amor: matrimônio e celibato (cf. Familiaris Consortio, n. 11).
É claro que, devido ao pecado, o impulso sexual não surge em nós simplesmente como o desejo de se fazer dom sincero de si mesmo. Todos nós – solteiros, casados, celibatários consagrados – precisamos lutar contra as muitas desordens e confusões da concupiscência. Mas nossa esperança é revigorada quando percebemos, como João Paulo enfatiza, que o coração é mais profundo que a concupiscência, e Cristo “reativa aquela herança mais profunda e concede a ela poder real na vida do homem” (TdC, 29/10/1980).
Isso significa que através da progressiva conversão a Cristo, nós podemos experimentar uma “real e profunda vitória” sobre a concupiscência (TdC, 22/10/1980). Se nos abrirmos à obra da redenção, o Espírito Santo na verdade impregna nosso desejo sexual “com tudo que é nobre e belo”, com “o supremo valor que é o amor” (TdC, 29/10/1980). Através deste progressivo processo de transformação nós redescobrimos o plano original de Deus para o desejo sexual e somos habilitados para pôr tal desejo a serviço do marital ou celibatário dom de si mesmo.
Novamente e sempre precisamos enfatizar: a vocação celibatária não é uma rejeição da sexualidade. Além disso, celibatários consagrados não são condenados a viver uma vida de isolamento do sexo oposto. Se alguém aborda a questão desta maneira, de acordo com João Paulo II, este alguém não está vivendo de acordo com as palavras de Cristo (cf. TdC, 28/04/1982).
“A vida humana, por sua natureza, é ‘coeduativa’” (TdC, 08/10/1980). Com isso o Santo Padre quis dizer que os sexos precisam um do outro, e eles precisam aprender a amarem-se um ao outro adequadamente para que a vida humana mantenha sua devida dignidade e equilíbrio. Isto é uma verdade tanto para celibatários consagrados quanto para pessoas casadas.
Homens e mulheres tais como Francisco e Clara de Assis, João da Cruz e Tereza d’Ávila, e Francisco de Sales e Joana de Chantal, todos estes tiveram saudáveis, santas, íntimas e celibatárias relações um com o outro. Sim, isso é perfeitamente possível. E que testemunhas de liberdade estes santos são!
Se pensamos que isto é impossível – se nós imediatamente suspeitamos de “negócios suspeitos” acontecendo em tais relacionamentos – então nós podemos nos contar entre aqueles a quem João Paulo II rotula de “os mestres da suspeição”. Os mestres da suspeição não acreditam no dom e no poder da redenção. Uma vez que a escravidão à concupiscência é tudo que eles conhecem em seus próprios corações, eles a projetam para todos os outros.
Mas como o Papa insiste: “O homem não pode tirar o coração de um estado de contínua e irreversível suspeita devido às manifestações da concupiscência da carne e da libido… A redenção é uma verdade, uma realidade, em nome da qual o homem precisa se sentir chamado, e chamado com eficácia”. De fato, ele diz: “o sentido da vida é a antítese da interpretação ‘de suspeita’” (TdC, 29/10/1980).
O Celibado é Sobrenatural
São precisamente estes “mestres da suspeição” que sustentam que o celibato é o culpado pelos vários problemas sexuais do clero amplamente noticiados em nossos jornais. “O celibato é simplesmente anti-natural”, eles dizem.
Em certo sentido estas pessoas estão certas em dizer que o celibato não é natural. Como se diz, e como Cristo revela, ele é sobrenatural. É o celibato por amor do Reino. Ao chamar alguns para renunciar ao chamado natural para o matrimônio, Cristo estabeleceu um modo de vida inteiramente novo e, assim, demonstrou o poder da Cruz para transformar vidas.
Para aqueles que estão “presos” em uma visão decaída do impulso sexual sem qualquer conceito da liberdade para a qual nós somos chamados em Cristo, a idéia de uma longa vida celibatária é completamente sem sentido. Mas para aqueles que experimentaram a transformação do seu desejo sexual em Cristo, a idéia de fazer um completo dom de sua sexualidade para Deus não somente se torna uma possibilidade, ela se torna muito atrativa.
O celibato é uma graça, um dom. Uma minoria dos seguidores de Cristo são chamados a abraçar este dom. Mas, para aqueles a quem este dom é confiado, a eles também é concedida a graça para que sejam fiéis aos seus votos, assim como as pessoas casadas recebem a graça de serem fiéis aos seus.
Em ambas as vocações, as pessoas podem rejeitar, e acontece de rejeitarem, esta graça, e violar seus votos. Certamente na maioria das típicas dioceses católicas, há uma necessidade por uma maior franqueza a respeito das feridas sexuais e pelo desenvolvimento e promoção de ministros que tragam a cura de Cristo para os que precisam, incluindo padres. Mas a solução para a infidelidade conjugal e celibatária não é ceder à fraqueza humana e redefinir a natureza dos compromissos. A solução é apontar para a Cruz como fonte da graça que ela é, uma fonte da qual nós podemos beber gratuitamente e receber poder real para viver e amar da forma como fomos chamados para viver e amar.
Além disso, as estatísticas de desvio de conduta sexual entre os padres celibatários não é maior do que a dos clérigos casados em outras denominações cristãs. Simplesmente não há evidências de que permitir ao clero o casamento resolveria ou mesmo aliviaria este problema.
Há também um perigoso equívoco implícito na idéia de que o casamento seria a solução do escândalo sexual de alguns padres. O casamento não é uma uma “válvula de escape legítima” para desejos sexuais desordenados. Pessoas casadas, não menos que as celibatárias, precisam experimentar a redenção do seu desejo sexual em Cristo. Somente assim eles poderão se amar um ao outro à imagem de Deus. Se um homem assumisse um casamento com profundas desordens sexuais, ele estaria condenando sua esposa a uma vida não como pessoa, mas como objeto sexual.
O celibato não causa desvios sexuais. É o pecado que faz isso. O ato de se casar não cura, simplesmente, as desordens sexuais. Cristo cura. A única forma de se acabar com os pecados de escândalo sexuais (cometidos por padres ou outros) é as pessoas experimentarem a redenção de sua sexualidade em Cristo.
Conclusão
Em um mundo que perdeu o céu de vista, aqueles que são “eunucos por amor ao Reino” resplandecem para nós como um testemunho brilhante do destino último da vida humana. Eles testemunham aquilo que Santo Agostinho disse muito bem: “Tu nos fizeste para Ti, ó Deus, e nosso coração não descansa até que nos repousemos em Ti”.
Como aprendemos com a Teologia do Corpo de João Paulo II, o desejo sexual e o sentido nupcial do corpo são, no final das contas, plenamente realizados nas núpcias eternas do céu. Desta perspectiva se torna claro que toda a confusão sexual do nosso mundo é simplesmente o desejo humano pelo Céu, porém, um desejo desesperado, frenético.
Somente “desembaraçando” esta confusão sexual nós poderemos começar a compreender o plano de Deus para a união nupcial como uma revelação e prefiguração da visão beatífica. Somente então conseguiremos enxergar que o celibato pelo Reino, longe de desvalorizar a sexualidade, antecipa e participa em sua plena realização final.
Nota do autor: Eu ainda acrescento o seguinte:
O Celibato Não é Intrínseco ao Sacerdócio
Ao contrário da opinião de muitos, o celibato não é essencial para um sacerdócio válido. É somente uma disciplina sustentada na Igreja do Ocidente a fim de obedecer mais fielmente ao exemplo de Cristo, o qual foi, ele próprio, um celibatário.
Nós freqüentemente esquecemos, aqui no Ocidente, que há muitas Igrejas Católicas no rito oriental (ou seja, Igrejas do Oriente em plena comunhão com o Papa) que possuem padres casados. Eles não são uma categoria de padres católicos inferior aos padres de rito romano, os quais vivem um sacerdócio celibatário. Além disso, em alguns casos, padres casados de outras denominações (anglicanos, por exemplo) que se convertem ao catolicismo, podem ser ordenados como padres no rito romano, mesmo sendo casados.
Alguns recorrem às vantagens práticas de um clero celibatário para explicar a prática da Igreja Ocidental. Muitos pastores protestantes ou padres casados podem confirmar as dificuldades de se tentar pastorear seu rebanho e cuidar de suas famílias ao mesmo tempo. Como São Paulo diz, o celibato permite que a pessoa não fique “dividida” em seu serviço, mas seja capaz de dedicar-se inteiramente ao serviço da Igreja (1Cor 7,32-34). E ainda, sem questionar o valor prático do celibato, há uma razão profunda e teológica para a disciplina do celibato para o clero ocidental.
Cristo não se casou com uma mulher específica, porque ele veio para se casar com a humanidade inteira. A Igreja é sua eterna Noiva. Padres ordenados se tornam um sacramento de Cristo. Eles tornam o amor do Noivo Celeste eficazmente presente para a Igreja, particularmente no sacrifício Eucarístico. Agindo na pessoa de Cristo, os padres também “se casam” com a Igreja.
Este importante simbolismo é melhor compreendido quando um padre também não é casado com uma mulher em particular. Mas, mais uma vez, isto não é essencial. A Igreja poderia muito bem mudar a disciplina do rito latino em algum momento do futuro e isto não alteraria a natureza essencial da ordenação sacerdotal.
Um apontamento que ainda precisa ser feito é que, se a Igreja em algum momento mudar a disciplina do celibato para o clero ocidental, aqueles que já forem ordenados não poderiam se casar. O sacramento da Sagrada Ordem imprime uma marca indelével na alma do homem que o recebe. Esta marca consagra um homem ao serviço de Cristo e da Igreja na única forma que precede sobre a consagração do matrimônio.
Um homem que já for casado pode receber o sacramento da Sagrada Ordem (no rito latino eles são limitados ao diaconato), mas um homem solteiro que receber o sacramento da Sagrada Ordem não pode se casar depois. Mesmo um diácono permanente, se fica viúvo, não pode se casar novamente.
———
Nota do tradutor: Eu achei que seria importante mencionar algo que o Christopher omitiu em seu texto: quando se fala em celibato, estamos falando de uma disciplina que a Igreja de rito romano impõe aos sacerdotes. Tal disciplina é absolutamente diferente do voto de castidade que é feito pelos religiosos e religiosas das diversas Ordens que existem na Igreja, como os agostinianos, franciscanos, beneditinos, dominicanos, clarissas, carmelitas, etc. Não obstante, muita gente confunde as duas coisas (celibato e voto de castidade).A diferença essencial entre um e outro é que, enquanto o celibato é uma disciplina inerente à função sacerdotal (e que, portanto, pode ser revogada pela Igreja), o voto de castidade é um voto pessoal, uma promessa íntima de sacrifício por causa do Reino. Por isso, mesmo na hipótese de que a Igreja, em algum momento, mude a disciplina do celibato sacerdotal, para os religiosos e religiosas os votos de castidade continuariam valendo. É suficientemente óbvio que isso jamais poderia mudar, pois o casamento é totalmente incompatível com a vida monástica, conventual, etc.
Tradução e adaptação: Fabrício L. Ribeiro
Teologia do Corpo – Índice
Segunda-feira, 25 Fevereiro, 2008 at 9:07 | In Teologia do Corpo | 2 CommentsTags: catolicismo, Christopher West, Família, João Paulo II, Matrimônio e Família, teologia, Teologia do Corpo, vida
Índice dos artigos de Christopher West sobre a Teologia do Corpo de João Paulo II, já traduzidos e publicados em português:
- O que é a Teologia do Corpo e por quê ela está mudando tantas vidas?
- Uma teologia básica do casamento
- A Teologia do Corpo e a Nova Evangelização
- Deus, sexo e bebês: o que a Igreja realmente ensina sobre paternidade responsável
- Uma resposta à crítica de Luke Timothy Johnson sobre a “desencorporada” Teologia do Corpo de João Paulo II
- Teologia do Corpo de João Paulo II: a chave para uma autêntica espiritualidade conjugal e familiar
- A fertilização in-vitro e a hermenêutica do dom
- O celibato por amor do Reino e a realização plena da sexualidade humana
Novos artigos são publicados a cada sexta-feira.
Paz e Bem!
Teologia do Corpo (por Christopher West) – Artigo 7
Sexta-Feira, 22 Fevereiro, 2008 at 9:09 | In Teologia do Corpo | 2 CommentsTags: amor, catolicismo, Família, Sexualidade, teologia, Teologia do Corpo, vida
A FERTILIZAÇÃO IN-VITRO E A HERMENÊUTICA DO DOM
por Christopher West
A “teologia do corpo” de João Paulo II demonstra que a chave para a correta interpretação da compreensão sobre quem é o homem e como ele deve levar sua vida, é a “dimensão do dom”. Na verdade, a realidade do “dom” determina “a verdade essencial e a profundidade do sentido” da dignidade original do homem perante Deus e perante toda a criação.[1]
Neste artigo eu irei resumidamente desdobrar a “hermenêutica do dom” de João Paulo II, e então aplicá-la à questão da fertilização in-vitro. Embora a imoralidade deste procedimento possa ser discutida sob várias perspectivas, eu gostaria simplesmente de demonstrar que a fertilização in-vitro (assim como todas as técnicas reprodutivas que substituem a relação conjugal como meio de concepção) é uma negação fundamental do “dom” e, como tal, uma traição fundamental à nossa humanidade. Desta forma nós abordamos os fundamentos mais profundos do magistério da Igreja a respeito da dignidade da vida em suas origens.
A Realidade do “Dom”
Primeiramente, antes de tudo, “o dom” se refere à transbordante troca de amor na Trindade que nos impulsiona – nós e todo o universo – à existência. “São Boaventura explica que Deus criou todas as coisas ‘não para aumentar sua glória, mas para mostrá-la e comunicá-la’, para Deus não há outra razão para criar senão seu amor e sua bondade”.[2]
Este é “o dom” – Deus criou o homem não na servidão, mas na liberdade para participar da bondade divina, da infinita troca de amor Dele próprio.[3] Como João Paulo nos diz, se “a criação é um dom para o homem, sua plenitude e mais profunda dimensão é determinada pela graça, isto é, pela participação na vida interior do próprio Deus, em Sua santidade”.[4]
Esta é suprema bem-aventurança do homem, e tudo que ele precisa fazer para vivê-la é se abrir para receber o dom. Quando ele o faz, seu coração é preenchido com gratidão por ter recebido um tão grande dom. Por isso, ele não deseja nada além de colocar sua liberdade a serviço do dom – primeiro, retribuindo o dom de amor a Deus em ação de graças (eucharistia), e então, repetindo tal dom, sendo para os outros o mesmo dom que a vida é para ele.
É por isso que “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Ele precisa de alguém com quem compartilhar o dom. Assim, a pessoa humana experimenta uma certa “solidão” como a única criatura do mundo visível capaz de “viver o dom”. Os animais não são “ajudantes” adequados sob esse aspecto.
Como o Papa expressa, “o homem surge no mundo visível como a mais elevada expressão do dom divino, porque ele conduz em si mesmo a dimensão interior do dom”.[5] Somente uma pessoa dotada com auto-determinação é capaz de receber “o dom” de Deus, retribuir tal dom (por exemplo, amando Deus em troca), e repetindo tal dom (por exemplo, compartilhando o amor de Deus com outros). Mas esta dignidade superior – este “dom” – concedido à pessoa humana também traz consigo uma responsabilidade especial. A liberdade pode ser abusada.
O Sentido Nupcial do Corpo
O termo “nupcial”, de acordo com o Santo Padre, “manifesta em uma palavra a total realidade daquela doação da qual as primeiras páginas do livro do Gênesis nos fala”.[6] O amor nupcial, portanto, é um amor de “total doação de si mesmo”. O homem experimenta seu chamado a repetir o dom divino desde o interior – do mistério invisível de sua alma espiritual. Porém, uma vez que o homem é uma unidade de corpo e alma, a “dimensão interior do dom” é confirmada exteriormente e visívelmente pelo sentido nupcial do corpo humano.
João Paulo II fala sobre uma “teologia do corpo” porque o “corpo, de fato, e somente ele, é capaz de tornar visível o que é invisível: o espiritual e o divino. Ele foi criado para transferir para a realidade visível do mundo, o mistério escondido desde os tempos imemoriáveis em Deus, e assim ser um sinal deste mistério”.[7] Em uma palavra, como nós temos aprendido, o mistério divino que o corpo simboliza é “dom”. “Isto é o corpo: um testemunho da criação como um dom fundamental, e assim um testemunho do Amor como a fonte da qual este mesmo presente brota”.[8]
O “sentido nupcial do corpo”, portanto, se refere à “capacidade que o corpo possui de expressar amor: precisamente aquele amor no qual a pessoa humana se torna um dom e – por meio deste dom – completa o verdadeiro sentido de seu ser e de sua existência”.[9] Aqui o Papa ressoa aquele texto chave do Concílio Vaticano II: “o homem somente pode descobrir completamente seu verdadeiro ser através da sincera doação de si mesmo”.[10] O que João Paulo quer estabelecer em sua teologia do corpo é que o que o Concílio ensina está enraizado não somente no aspecto espiritual da natureza humana, mas também em seu corpo.
O ser humano é uma “pessoa corporal”. Ele espelha o dom divino sendo um dom para os outros através do seu corpo. Agora as palavras do Gênesis 2,24 fazem sentido: “Por esta razão [ou seja, para repetir o dom divino] um homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”. É claro que a união conjugal não é a única maneira de “viver o dom”, mas a diferença sexual e nosso chamado à união são revelações primordiais do dom divino.
Em resumo, se diferença e união sexual são dadas por Deus como um dom, ela deve ser vivida como um dom através do qual todas as gerações recebem o maior dom, que é a própria vida. Este é “o sentido com o qual o sexo entra na teologia do corpo”.[11] Quando o homem desrespeita este sentido, ele remenda o verdadeiro “fundamento da vida humana”[12] e altera a “mais profunda base da ética e da cultura humanas”.[13]
O(A) Filho(a) Incorpora o Dom
O amor, é claro, é difuso de si mesmo, ou seja, ele se espalha. Ele procura aumentar seu próprio círculo de comunhão. Deus – que é amor – é uma Comunhão vivificante de Pessoas. A realidade infinita do “dom” na troca de amor Trinitária é, ao mesmo tempo, um mistério de “infinita geração”.[14] Embora essencialmente diferentes, a comunhão macho-fêmea em algumas formas ecoa o mistério divino de “dom-geração” na ordem criada.
Assim, em um formidável desenvolvimento do pensamento católico, João Paulo deduz que “o homem se torna ‘imagem e semelhança’ de Deus não somente através de sua humanidade, mas também através da comunhão de pessoas que homem e mulher formam bem desde o princípio”. Isto “constitui, talvez, o mais profundo de todos os aspectos teológicos que podem ser ditos sobre o homem”. E o Papa acrescenta que em “tudo isto, bem desde o princípio, procede a bênção da fertilidade ligada à procriação humana”.[15]
O mistério não-criado Trinitário de “dom-geração” comunga com o mistério criado de homem e mulher de “dom-geração” mais tangivelmente na co-criação de um novo ser-humano. Neste momento, Dom e dom se encontram e concedem o maior de todos os dons – vida! Se eles forem fiéis às promessas que fizeram no altar, marido e mulher recebem tal dom amavelmente das mãos de Deus.
Sob esta luz, podemos entender a afirmação de João Paulo, de que “a procriação é enraizada na criação, e a todo momento, em certo sentido, reproduz seu mistério”.[16] Este é o mistério do “dom” – de amor e vida de Deus brotando para o homem. Por isso, “o terceiro” que surge da “união de dois” incorpora o dom.[17] Em certo sentido, o filho é a “uma só carne” que os esposos se tornam – o sinal vivo e respirante da doação esponsal.[18] E uma vez que a origem de tudo que existe é o amor auto-donativo da Trindade, quando os esposos se doam a si mesmos um ao outro em “uma só carne”, eles renovam o mistério da criação “em todo o seu poder original, profundo e vital”.[19]
O Pecado e “a Negação do Dom”
Através desta “hermenêutica do dom”, João Paulo diz que abordamos “a verdadeira essência da pessoa”.[20] De fato, o chamado a ser dom inscrito no sentido nupcial do corpo é “o elemento fundamental da existência humana no mundo”.[21] É por isso que o pecado – que é sempre uma afronta direta à “verdadeira essência da pessoa” – invariavelmente envolve a “negação do dom”.
Para ajudar-nos a compreender o funcionamento interno do pecado original, João Paulo indica o momento chave do diálogo entre a serpente e a mulher: “Você não vai morrer. Mas Deus sabe que quando você dela comer [da árvore] seus olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores o bem e o mal” (Gn 3,4-5). Satanás plantou no coração do ser humano a desconfiança em relação ao Criador. Como o Papa diz, esta tentação “claramente inclui o questionamento do Dom e do Amor, do qual a criação teve sua origem como dádiva”.[22]
Alguém pode ler a crítica da serpente da seguinte forma: “Deus não vos ama. Ele não quer que vocês sejam como Ele. Ele não tem nenhuma intenção de fazer uma doação de Sua vida para vós. Na verdade, Ele está justamente escondendo-a de vocês ao proibir-vos de comer desta árvore. Se vocês quiserem vida (felicidade), se vocês quiserem ser ‘como Deus’, vocês deverão alcançá-la e apanhá-la vós mesmos, pois é claro que Deus não lhes dará.”
O homem determina a intencionalidade de sua completa existência por uma das duas posturas fundamentais e incompatíveis: receptividade ou usurpação.[23] A postura que cada pessoa assume depende de seu conceito de Deus. Se Deus é Amor e o doador de todas as coisas boas, então tudo que precisamos fazer para alcançar a felicidade pela qual buscamos é ser receptivos. Nós confiamos que a disposição que Deus estabeleceu no universo é “para nós” e nós desejamos viver de acordo com ela. Por outro lado, se concebemos Deus como um tirano, então veremos a Ele e sua disposição do universo como uma ameaça à nossa felicidade, uma mudança na nossa postura natural de receptividade, e a procura de usurparmos a vida por nosso próprio intento.
É verdade, claro, que o ser humano também tem a tarefa de refletir a imagem de Deus tomando a iniciativa e desenvolvendo o mundo (“cultivá-la [a terra] e guardá-la”, Gn 2,15). Mas, como uma criatura, o homem somente se torna “semelhante a Deus” se primeiro receber esta semelhança de Deus. Em outras palavras, como uma criatura, a iniciativa própria do homem sempre procede de sua receptividade ao dom. Quando o homem desrespeita esta postura de receptividade – quando ele procura conduzir a vida a seu próprio intento, com suas próprias forças, distante desta receptividade – ele faz de si mesmo “semelhante a Deus”. Ele se aventura “através daquele limite que permanece intransponível ao desejo e à liberdade do homem como um ser criado”.[24]
Como o Catecismo explica, “seduzido pelo demônio, [o homem] quis ’ser semelhante a Deus’, mas ’sem Deus, antes de Deus, e em desacordo com Deus’”.[25] O homem se ergue como o iniciador de sua própria existência e da usurpação de sua vida. E como João Paulo enfatiza, o pecado consiste precisamente nisso – “na rejeição do dom e do amor que determina o início do mundo e do ser humano”. [26]
Fertilização In-Vitro e “o Ethos do Dom”
Uma vez que os filhos são “o supremo dom” do amor conjugal[27], é completamente natural o sofrimento dos esposos quando estes descobrem que não podem conceber. A que recursos um casal como esse poderia recorrer? Embora o desejo de superar a infertilidade seja certamente legítimo em si mesmo, é precisamente a “hermenêutica do dom” que nos ajuda a compreender “aquele limite que permanece intransponível ao desejo e à liberdade do homem como um ser criado”. [28]
Não obstante as boas intenções daqueles que lançam mãos de técnicas in-vitro, extrair os gametas humanos e tecnologicamente induzir a concepção de uma vida humana quebra a dinâmica do “dom”. Tal atitude rompe o “dom” entre Deus e o homem, entre o homem e a mulher, e entre os pais e os filhos. Vejamos.
João Paulo alcança o ápice de sua avaliação do amor conjugal quando ele descreve a vida conjugal como “litúrgica”[29]. A própria união conjugal destina-se a ser uma experiência de profunda comunhão com Deus, um ato de “veneração à majestade do Criador”[30]. Ela é destinada a expressar a receptividade do casal enquanto criaturas, a ação de graças diante de Deus, e sua reciprocidade e resumo do dom divino. Aqui, numa profunda cooperação do humano e do divino, Dom encontra dom e concede – ou, de acordo com seu próprio bem, não concede – o dom da vida.
Os esposos são certamente livres, ao repetir o dom, para tornar as condições para a concepção as melhores possíveis. Por isso, a Igreja não se opõe àquelas técnicas que assistem à união conjugal ajudando-a a alcançar seus fins naturais. Mas o casal jamais deve mudar sua postura da receptividade para a cobiça, a usurpação. Tão logo o fazem, eles “negam o dom” e se tornam “’semelhantes a Deus’, mas ’sem Deus, antes de Deus, e em desacordo com Deus’”.[31]
Consciente ou inconscientemente, aqueles que lançam mão da fertilização in-vitro demonstram que não estão satisfeitos em permanecerem receptivos diante do Único “Senhor e Doador da vida”. Uma vez que o Criador não concedeu o dom através de sua própria doação de si mesmos, eles procuram “tomar o dom”.
Os esposos que vivem o “ethos do dom” experimentam um “temor salvífico” de violar ou degradar alguma vez o “conteúdo religioso” e o sentido teológico de sua auto-doação mútua.[32] A união “numa só carne” fala de um “grande mistério” (cf. Ef 5,31-32) – o mistério humano-divino de “dom-geração”. A fertilização in-vitro nega este “grande mistério” pela usurpação da doação mútua dos esposos.
Removido pra longe dos arredores da união física e espiritual dos esposos, as técnicas in-vitro instrumentalizam a sexualidade humana. Ao invés de honrar o corpo e seu sentido nupcial, médicos, especialistas e os próprios esposos tratam seus corpos como objetos a serem minados em busca dos “materiais” necessários para a “produção” de um filho. Uma parte típica deste procedimento, é claro, é a masturbação masculina que em si mesma nega radicalmente o “dom” marital e a receptividade de sua mulher ao dom.
Além disso, embora haja muitos atos através dos quais um filho possa ser concebido (a união conjugal, o estupro, a fornicação, o adultério, o incesto, e vários procedimentos tecnológicos) somente um está em harmonia com a dignidade do filho como um “dom” divino. Desejar um filho não como fruto do amor conjugal, mas como o resultado final de um procedimento tecnológico, é tratar o filho como um produto a ser obtido, ao invés de um presente, um dom a ser recebido e uma pessoa a ser amada “por seu próprio intento”[33]. Tal postura cria – consciente ou inconscientemente – uma orientação despersonalizada a respeito do filho.
Produtos são sujeitos a controle de qualidade. Quando uma pessoa gasta algum dinheiro com uma nova TV, ela a quer em condições impecáveis. Ela não se importa com a TV, ele a tira da caixa “por seu próprio intento”. Se ela estiver defeituosa, ele a enviará para reembolso, ou trocará por uma nova. Igualmente, tal é a tentação, toda tão real, para um casal que está gastando milhares de dólares com uma fertilização in-vitro, de querer um “reembolso” ou uma “troca” do seu “produto” se ele for “defeituoso”.
A “negação do dom” inerente às técnicas in-vitro leva as pessoas a quererem não o bebê particularmente concebido “por seu próprio intento”, mas bebês em “condições impecáveis”, ou mesmo bebês “feitos sob demanda”. A única forma de garantir que cada filho é recebido como um dom divino é garantir que cada filho seja concebido como uma repetição do dom divino. Amor incondicional gera amor incondicional.
Conclusão
Nós aprendemos que a “dimensão do dom” é a chave para a interpretação da “adequada antropologia” de João Paulo II. Uma vez que o mistério do “dom” origina-se no próprio Deus, uma adequada antropologia precisa ser uma antropologia teológica. Por isso, uma vez que “o dom” está inscrito no corpo humano, uma adequada antropologia precisa ser uma “teologia do corpo”.
A proliferação da fertilização in-vitro é somente um sinal pelo qual vemos que grande parte do mundo moderno sofre de uma necessidade desesperada das catequeses revolucionárias de João Paulo II sobre o corpo humano. Muito mais está em jogo em questão de moralidade sexual e procriação do que a maioria aceita admitir. De fato, “as escolhas e as ações [de homens e mulheres] trazem à tona toda a dimensão da existência humana na união dos dois”[34]. Quando usurpamos a vida, nós morremos (cf. Gn 2,17). Quando nós recebemos o dom, o retribuímos, e o repetimos, nós realizamos “o completo sentido do [nosso] ser e existência”.[35]
———
[1] Cf. João Paulo II, Audiência Geral de 2 de janeiro de 1980.
[2] Catecismo da Igreja Católica, n. 293
[3] Cf. ibid, n. 221.
[4] Audiência Geral de 30 de janeiro de 1980
[5] Ibid, 20 de fevereiro de 1980
[6] Ibid, 16 de janeiro de 1980
[7] Ibid, 20 de fevereiro de 1980
[8] Ibid, 9 de janeiro de 1980
[9] Ibid, 16 de janeiro de 1980
[10] Gaudium et Spes, n. 24
[11] João Paulo II, Audiência Geral, 9 de janeiro de 1980
[12] João Paulo II, Ecclesia in America, n. 46
[13] João Paulo II, Audiência Geral, 22 de outubro de 1980
[14] Cf. João Paulo II, Mulieris Dignitatem, n. 18.
[15] Audiência Geral de 14 de novembro de 1979
[16] Ibid, 21 de novembro de 1979
[17] Cf. ibid, 12 de março de 1980.
[18] Cf. João Paulo II, Familiaris Consortio, n. 14.
[19] João Paulo II, Audiência Geral, 21 de novembro de 1979
[20] Ibid, 2 de janeiro de 1980
[21] Ibid, 16 de janeiro de 1980
[22] Ibid, 30 de abril de 1980
[23] Para um excelente artigo sobre a natureza do pecado em relação à receptividade e cobiça, cf. Jean-Pierre Baput: “The Chastity of Jesus and the Refusal to Grasp” — A Castidade de Jesus e a Recusa da Usurpação (Communio, Spring 1997 pp. 5-13).
[24] João Paulo II, Dominum et Vivificantem, n. 36
[25] Catecismo da Igreja Católica, n. 398
[26] Dominum et Vivificantem, n. 35
[27] Cf. Gaudium et Spes, n. 50.
[28] João Paulo II, Dominum et Vivificantem, n. 36
[29] Cf. Audiência Geral de 4 de julho de 1984.
[30] Ibid, 21 de novembro de 1984
[31] Catecismo da Igreja Católica, n. 398
[32] Cf. ibid; cf. também 14 de novembro de 1984.
[33] Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, n. 24
[34] João Paulo II, Audiência Geral, 27 de junho de 1984
[35] Ibid, 16 de janeiro de 1980
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Tradução e adaptação: Fabrício L. Ribeiro
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